3 violências comuns que cometemos contra crianças

Há, pelo menos, 3 violências muito comuns que cometemos contra crianças, mesmo que essa não seja a nossa intenção. No geral, como sociedade, não tratamos crianças como indivíduos. O fato delas serem completamente dependentes dos adultos que as cercam as deixam em uma situação completamente fragilizada e sujeitas a abusos que nem mesmo os seus adultos responsáveis identificam como tal.

E os primeiros a cometer pequenos e grandes abusos são, obviamente, os pais. É comum a ideia de que o filho é uma propriedade, uma posse, uma conquista. Quase um objeto. “O filho é meu e eu faço o que eu quiser” é a máxima que governa boa parte das relações parentais. E aí toda sorte de fronteiras são ultrapassadas. Mas ignoramos solenemente que crianças possuem limites e não raro as tratamos como um bichinho de pelúcia fofo que podemos brincar, apertar, jogar pra cima e pra baixo, enfeitar como quisermos, dar uns tabefes talvez. Mas por amor, é claro.

E isso é importante sublinhar. Não há aqui nenhuma dúvida sobre a legítima boa intenção da esmagadora maioria das mães, pais, cuidadores em geral. Não há nenhuma dúvida sobre o amor, sobre o cuidado, sobre o sacrifício dispensado para a criação daquela criança. Nada disso anula o fato de que temos conceitos muito equivocados e que mesmo recheados de boas intenções cometemos muitas trapalhadas e algumas tantas violências.

Eu vou citar aqui algumas coisas simples, corriqueiras, que costumeiramente fazemos com crianças e que representam um grande desrespeito a sua individualidade e até a sua dignidade. Nada feito “por mal”, mas feito sempre sem pesar muito o que aquilo implica, sem considerar a subjetividade da criança envolvida.

E antes de começar para fazer entender bem como essas ações costumeiras podem ser graves e nós sequer percebemos, eu gostaria de propor um exercício de imaginação relativamente simples:

imagine que você é um extraterrestre recém-chegado a outro planeta e que para estar lá tem que ser tutelado por um grupo a quem deve obedecer a todas as orientações. Você não conhece absolutamente nada das regras sociais daquela civilização, você não conhece o idioma, não pode andar pelos lugares desacompanhado, nem ficar sozinho. Você precisa de orientação para se alimentar, porque não consegue preparar o alimento sozinho, e precisa de supervisão até para se vestir e ir ao banheiro. Até se adaptar nesse planeta, você é completamente dependente dessa família para sobreviver. Você, nessa condição, é como qualquer criança e essa família, são seus cuidadores. E, por pura dependência e desconhecimento, você está submetido às regras dos seus cuidadores e desse novo planeta.

Vamos começar então?

1. tocar em crianças sem sua permissão.

Imagine que nesse planeta em que você é recém-chegado todos os habitantes sentem-se no direito de tocar seu corpo, a qualquer momento. Eles estão fascinados com a sua espécie e se encostam em você sem pestanejar, onde quer que você esteja. Eles se aproximam e tocam seu cabelo, apertam sua bochecha, fazem cócegas em você. Seres que você acha agradáveis, seres que você acha assustadores, seres repugnantes. Não importa. Você tenta desvencilhar-se. Você diz não. Você foge. Não adianta. Riem de você. Te tratam com condescendência. Te ofendem e te humilham se você parecer zangado. Te obrigam a ser tocado apenas porque sim. Ignoram o seu pesar, o seu medo, o seu nojo. Afinal você é tão fofo, por que resiste? Não seja um alienígena mal educado, submeta-se, dá um beijinho aqui!

Sentiu desconforto com a ideia? Pois é isso que acontece com crianças o tempo inteiro. A autonomia corporal delas é constantemente violada por terceiros. O corpo das crianças é tratada como um bem público onde todos sentem-se a vontade para tocar quando bem entendem a despeito dos protestos dessas crianças. Ainda no útero qualquer pessoa se sente no direito de tocar, desde a barriga da mulher grávida, até toda e qualquer criança, durante todo o seu estágio de desenvolvimento infantil, a sua revelia.

Crianças são indivíduos, não as toque, ponto final. Use os mesmos critérios que você usa para você. Quem você permite que te abrace, que te beije, que te faça carinhos? Qualquer estranho na rua? Ou pessoas da sua confiança a quem você PERMITIU fazer isso? Protejam crianças que não conseguem se expressar, não é porque ela não fala que essa situação é desejada para ela, não precisa muito para entender a problemática dessa situação.

2. trocar a roupa de crianças em público

Agora imagine que neste planeta onde você foi parar, o grupo que te acolheu tenha que trocar constantemente suas roupas para sua adaptação à atmosfera do planeta e eles o deixam nu ou seminu a qualquer momento, em qualquer lugar, não importando quem ou quantos outros estejam presentes, e não importando o que você pensa ou como se sente a respeito. Sentiu-se vulnerável?

Nós, adultos, desnudamos nossas crianças com muita facilidade e em qualquer lugar, com muito pouca preocupação em resguardar sua integridade corporal nesses momentos. Afinal, “são só crianças, não tem problema”. Mas será que esse é um lugar confortável para crianças, principalmente a medida que crescem, se verem nuas em um ambiente onde todos os outros estão vestidos? Onde podem receber olhares e também comentários não-solicitados sobre seu corpo? É será que é seguro? Não há uma questão moral aqui apenas um questionamento, será que é realmente uma boa ideia naturalizar para as crianças que elas podem ficar nuas na frente de desconhecidos? Que “não tem nada a ver”? Que ela “é só uma criança?”. Nós podemos garantir que essa instrução não pode deixá-la desarmada demais diante de pessoas mal-intencionadas? Nós podemos assegurar completamente que está criança não está sendo fotografada ou filmada e terá sua imagem nua/seminua exposta ou comercializada junto a predadores sexuais? Nós temos, em última instância, o direito de desnudar nossas crianças em público, quando nós mesmo não fazemos isso? Nós não saímos ficando pelados por aí (para além de ser ataque violento ao pudor) por todas as questões supracitadas (insegurança, exposição, vulnerabilização…). Por que para crianças dizemos que é “normal”?

E isso vale também para a instrução de urinar (e até defecar) no meio da rua. Principalmente para meninos. Que crescem e tornam-se homens que se acham no direito de expor a genitália a qualquer momento e em qualquer lugar. Que não são capazes de controlar a própria bexiga — como meninas são ensinadas a fazer. E que levam para vida um hábito que altamente indesejável que é o de urinar pelas ruas tornando certos lugares da cidade simplesmente intransitáveis.

3. brincadeiras humilhantes e provocações

Finalmente, os habitantes desse planeta que você está visitando tem uma hábito muito curioso. Eles adoram uma experimentação e você é o campo de provas! Como você não conhece nada daquele planeta eles te contam histórias assustadoras, inventam fenômenos que não existem, insistem em ser desagradáveis e todo tipo de coisa. Eles se divertem com suas reações e estão constantemente te enganando, te assustando, te irritando, te aborrecendo, apenas para ver como é bonitinha a sua “cara”, como é engraçado quando você fica bravo, ou chora, ou fica morrendo de medo. Você é tratado com extrema condescendência, não é levado a sério, subestimam seus sentimentos, não te escutam com atenção e percebe que só é interessante a medida que funciona como entretenimento. Você quase os odeia. Mas depende de todos eles. E aprende a aceitar porque simplesmente é a parte mais fraca e será punido se reagir. Parece bom pra você?

Temos o hábito de ficar “provocando” as crianças. Queremos vê-las chorar, rimos quando estão assustadas, enraivecidas, debochamos delas. Não as ouvimos com consideração. Não acreditamos nelas. Nosso comportamento geral com crianças é uma coisa horrorosa e desrespeitosa.

Parem, apenas parem de tratar crianças como experimentos científicos. Que vamos “implicar”, assustar, fazer “testes”, pregar peças, enganar, apenas para ver suas “reações”. Adultos são uma legião de “tios do pavê” quando trata-se de crianças. Achamos bacana rir dos seus tombos, dos seus medos, das suas dúvidas. Tratamos crianças como seres muito pitorescos, muito “fofinhos” e “bonitinhos”. Essas são as crianças que “servem”. As que funcionam como entretenimento, que levam “alegria” por sua “inocência”. Mas na hora que elas apresentam seus temores, inseguranças e dificuldades, ninguém quer estar perto. E mais ainda, parem de filmar todo e qualquer momento de vulnerabilidade das crianças e expor na internet. Pergunte-se: você gostaria de virar um meme? Você gostaria de crescer tendo sido um meme? Ser reconhecido como “a criança do meme”? Não percebem que uma piada só é engraçada para quem ri e não para o objeto do riso?


Em resumo

Crianças têm direito a proteção da sua integridade física e psíquica, têm direito a sua imagem e de serem donas da sua história. Somos seus guardiões até que elas tenham idade e maturidade bastante para pesar e assumir as consequências dos seus atos. Mas nós tratamos crianças como posse, como uma coisa que não possui uma crescente autonomia, que não tem compreensão — ainda que limitada — dos fatos. Achamos que “crianças não entendem as coisas” e as tratamos como seres que não percebem e não sentem os pequenos e grandes abusos que cometesmo. Fazemos com uma criança aquilo que nunca faríamos com qualquer outro adulto que por quaisquer motivos estivesse sob nossa supervisão e cuidados.

Nós, constantemente, violamos a autonomia corporal e a integridade das nossas crianças. É algo tão incorporado na nossa cultura e nos nossos hábitos que sequer percebemos isso como uma violação. Mas com um pouco de bom senso é muito fácil perceber os limites, basta considerar que crianças são pessoas. Basta considerar que a despeito de terem dificuldade de elaborar, elas tem sim sentimentos. E podemos aprender a considerá-los e respeitá-los.

Cila Santos

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Segue trincando os dentes e indo em frente. Vamos juntas?

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