Cesárea é uma cirurgia. E daí?

 Cesárea é uma cirurgia. E daí?

Parir, a grossíssimo modo, significa “expelir algo de si”. Portanto, é o verbo usado para definir o ato de fazer sair o bebê pela vagina. Cesárea é uma cirurgia onde se extrai o bebê do útero do mãe. Não há dúvidas em relação a isso, são processos distintos, que recebem nomenclaturas distintas. Quem faz uma cesárea, não está parindo. Quem está parindo, não está fazendo uma cesárea. Indiscutível.

“Parto” é a palavra usada para definir a culminância do processo de gravidez, o momento em que o bebê sai da mãe. É comum, inclusive, o uso das expressões “parto normal” e “parto cesárea”, onde a palavra “parto” é usada justamente nesse sentido, indicando o momento em que se dá o fim do processo de gravidez e por qual via de nascimento (natural ou cesárea).

Seja por via vaginal ou por via cesárea, é possível dizer, com alguma generosidade, que todas as mulheres têm o seu parto. E tudo bem por isso.

No entanto, não raro, explode a batalha semântica onde dicionários são atirados na cara das mulheres que fizeram cirurgia para que elas deixem de usar a palavra “parto”, porque parece que só pode dizer que teve um quem expeliu um bebê pela sua vagina.

E aí, antes que comece a chuva de verbetes, são algumas as questões que considero importantes de serem colocadas:

  • o Brasil tem índices epidêmicos de realização de cesárea (No Brasil, este número chega a aproximadamente 56% em sua totalidade, onde a recomendação dá OMS é 15%. Considerando apenas as redes privadas, as cesáreas ultrapassam os 88%). Estes números estão absolutamente correlacionados com a forma como o sistema obstétrico brasileiro funciona. Não é a mulher que exatamente “escolhe” a via de parto que vai ter, sendo antes seduzida, convencida, induzida, coagida ou simplesmente forçada mesmo a este tipo de situação na esperança de garantir um mínimo de segurança física e emocional para si.
  • o Brasil tem índices alarmantes de violência obstétrica, uma em cada quatro mulheres no Brasil sofre violência durante a gestação ou parto, seja física, com a realização desnecessária de procedimentos (como toque doloroso ou episiotomia); seja psicológica (com restrição de movimentos, alimentação, negação do direito ao acompanhante); seja moral, com abuso verbal (“na hora de fazer, não doeu) e humilhações diversas (como sua exposição sem consentimento para um sem-números de residentes médicos, enema, tricotomia).
  • Toda a assistência ao parto no Brasil se utiliza de vários procedimentos completamente desatualizados que são desaconselhados pela OMS. Tanto para parto vaginal quanto para cesárea. E inclusive para as rotinas neonatais (separação precoce da mãe, corte precoce do cordão umbilical, uso de nitrato de prata, etc.)
  • Os hospitais da rede pública que atendem a protocolos de atendimento obstétrico atualizados são raríssimos. Na rede particular, são inexistentes mesmo, visto que a regra, por questões puramente econômicas, é forçar um encaminhamento para a cesárea. Exceto que se pague uma equipe de profissionais humanizados.
  • Uma equipe de parto humanizado hospitalar custa aproximadamente R$ 10.000,00. Um pouco menos ou muitíssimo mais. Depende do número de estrelas dos profissionais.
  • A informação que mulheres recebem sobre parto, fisiologia dos seus corpos, protocolos recomendados, realidade da questão obstétrica é quase nenhuma, equivocada, ou desatualizada. Elas são inundadas, durante a gravidez de desinformação, mitos (dor insuportável, vagina larga, etc) e as terríveis histórias de violência obstétrica que escuta de outras mulheres que a enchem de completo PAVOR da experiência de parto normal pelo SUS. E os médicos que existem na rede privada raramente realizam partos normais e ainda enganam suas pacientes com falsas indicações que fazem a mulher temer pela segurança do bebê.
  • Vivemos em uma cultura cesarista, onde o parto normal é visto como uma coisa selvagem e perigosa. A retratação do parto pela mídia quase sempre é mal acabada. Os partos cesáreos hoje estão sendo capitalizados para a além da questão do nascimento e sendo transformados em lucrativos negócios e para normatizar isso há todo um aparato cultural e midiático que glamouriza a cirurgia.

Postas estas questões, fica a pergunta: qual a necessidade de tripudiar em cima dessa mãe que caiu na cesárea eletiva por N motivos supracitados tirando dela a possibilidade de nomear o evento do nascimento do próprio filho como sendo um parto?

Sério. Pra quê isso? Vocês acham que essa mulher não sabe que passou por uma CIRURGIA? Que ela não sabe que não “pariu”? Por que tanta questão de travar esta batalha etimológica e traçar essa linha divisória? Parem. Nós, mulheres-mães, estamos todas ferradas. Desamparadas. Desassistidas. TODAS. Ainda que individualmente uma mulher tenha a maternagem dos sonhos, enquanto classe, somos a raspa do tacho. Não devia fazer tanta diferença assim o nome do evento pelo qual buraco o seu filho saiu.

Não existe empoderamento individual. Empoderamento significa “dar poder a”. E mulheres não tem poder pra nada. Sejamos honestas. Muito menos quando se tornam mães. Se uma mulher conseguiu ter o “parto dos sonhos”, ela não teve “empoderamento,” teve SORTE. Um conjunto de fatores programados ou aleatórios que oportunizou conseguir acesso a boa informação, de ter rede de apoio, de ter acesso a um hospital público humanizado com vagas, ou de ter (muito) dinheiro para pagar uma equipe. Ou de ter crédito para conseguir um empréstimo. Ou amigos que ajudaram. Ou patrimônio para vender. Não importa.

E alguém esteve lá, junto, segurando as pontas para que ela parisse sossegada e feliz. Uma doula. Um acompanhante que pode ter brigado com meia dúzia para prevenir abusos. Porque quando o trabalho de parto chega… não há mais nada que uma mulher possa fazer exceto torcer para tudo dar certo… e parir. Ela não precisa de “empoderamento” nenhum. Precisa de condições ambientais que a favoreçam. Parir via vaginal é um processo fisiológico básico de fêmeas.

É até injusto jogar a falácia do “empoderamento” para cima de mulheres gestantes. Pedir que estas mulheres, neste momento tão fragilizante de suas vidas saiam enfrentando sozinhas médicos, companheiro, família, sistema obstétrico. Que façam dívidas e empenhem dinheiro que não possuem em nome de um parto vaginal decente que deveria ser protocolo padrão do sistema de saúde para o qual pagam onerosos impostos.

Desculpe-me a dureza. Não é minha intenção, por outro lado, minimizar os esforços de desconstrução interna e as lutas que certamente todas essas mulheres travaram para conseguirem ter os seus partos humanizados. Não estou dizendo que não é muito difícil, que não é necessária muita fibra e coragem e enfrentamentos, e talvez seja este mesmo o ponto.

É preciso reconhecer que ter um parto vaginal respeitoso no Brasil, não se trata de apenas de “querer, lutar e conseguir”. Que não é porque algumas mulheres conseguiram que isso é realmente acessível para a maioria das mulheres. Olhemos os números, as estatísticas. O “parto dos sonhos” quase sempre se deve a uma conjuntura de fatores, alguns deles muito privilegiados, que não estão disponíveis para a avassaladora maioria das mulheres brasileiras. Não estão. É uma possibilidade que milhares de mulheres não tiveram, não têm e não terão, por mais que queiram. É preciso reconhecer isso.

E é preciso respeitar a vivência das mulheres que fizeram cesárea eletiva e respeitar a maneira como elas querem nomear suas experiências sim, porque em última instância, dado a realidade obstétrica brasileira, a chance dessa mulher ter passado por alguma violência nesse processo de “escolha” é altíssima. É quase absoluta. Mesmo que ela não saiba disso, ou pior ainda se ela souber disso. Inúmeros estudos demonstram que mulheres iniciam suas gestações desejando uma via de parto vaginal e que simplesmente vão “mudando de ideia”, durante o processo. O que acontece? É realmente vontade de fazer uma “cirurgia”? Ou é medo, desinformação, ou impossibilidade? Essas mulheres tiveram que escolher entre uma “cirurgia” e violência obstétrica. Dizer que elas não se “empoderaram” o bastante é uma piada cruel.

Então não seja você, por favor, a pessoa babaca, que vai chegar para uma mulher que retornou totalmente desamparada de uma cesárea eletiva, talvez sem o menor entendimento da própria situação, e vai jogar na cara dela que ela não teve um “parto”. Por favor, não faça isso. Isso não é empoderamento, não é militância, não é ativismo. Isso é a boa e velha competição feminina aplicada à maternidade.

Mulheres que fazem cesárea eletiva são vítimas de um sistema que não conseguiram vencer. Que nem entenderam direito que tinham que lutar, na verdade. Quase toda mulher desconhece os desafios que tem pela frente para ter um parto respeitoso, até engravidar pela primeira vez. E diversas dessas mulheres se frustram e se culpam quando entendem que não vivenciaram a experiência mais adequada para o nascimento de seu filho. São mulheres que não possuíram apoio, não possuíram informação, não possuíram dinheiro, não possuíram amparo médico, não possuíram forças para comprar essa briga sozinhas. São mulheres que preferiram acreditar que estavam escolhendo. E que defendem isso com unhas e dentes porque é o que resta.

Como é que se tem coragem de chegar para mulheres que estão apenas conformadas com a possibilidade da cesárea, tentando se convencer de que estão fazendo o “melhor para o seu filho”; mulheres que morrem de medo de um parto vaginal porque tem informações completamente equivocadas; para mulheres que sofreram violência obstétrica, e SONHAM com uma cesárea por acreditar que serão melhor tratadas; para mulheres que se culpam intimamente por não ter “lutado” pelo tão aclamado parto vaginal; mulheres que quase se desfizeram em trabalhos de parto longuíssimos que desembocaram em cesáreas intraparto; e retirar, depois de tanta coisa, a possibilidade delas chamarem o nascimento dos seus filhos de “parto”? Pra quê isso?

Ninguém percebe como isso é violento? Porque a palavra “parto” tem uma carga simbólica. Não é uma mera tecnicalidade. Ela é consensualmente a palavra utilizada para designar o evento do nascimento, o ponto de partida. Se a mulher não teve um parto ali, ela teve o quê? Uma extração fetal? É tecnicamente correto? É. Mas é nesse nível que realmente vamos tratar as coisas entre nós? Vamos dizer que há mulheres com Depressão Pós Parto e mulheres com Depressão Pós “Extração Fetal”? Perguntar se ela teve uma boa “extração fetal”? É assim que vai ser? É assim que as iluminadas, empoderadas, vão tratar as mulheres que são vítimas do sistema obstétrico, da cultura cesarista, da romantização da maternidade? É esse tipo de disputa ridícula que vamos ficar travando entre nós, dividindo o mundo entre “parideiras” e “mãezinhas”, como se não estivéssemos TODAS afundadas na mesma lama até o pescoço?

Tem coisas bacanas acontecendo, de verdade. Discussões sérias de práticas obstétricas, profissionais empenhados, espaços de acolhidamobilização em função de projetos do Estado, mudança cultural rolando. São conquistas do movimento de humanização sim, e que passam longe dessa egoica briga de gangues que se formou na bolha materna. Não é tirando das mulheres-mães o direito de nomear o momento da chegada dos seus filhos de uma maneira que lhes é mais aconchegante, carinhosa e socialmente aceita que se está mudando a realidade do sistema obstétrico. Apenas parem com isso. Repito, isso é pura competição feminina, não é ativismo, não é militância materna.

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