Essa vida não foi feita pra dar certo

 Essa vida não foi feita pra dar certo

Uma escola no Rio Grande do Sul promoveu uma festa para seus alunos adolescentes com o tema “E se nada der certo”. Mergulhados na proposta, os jovens compareceram fantasiados de profissionais da área operacional e serviços, como faxineiro, atendente, mecânico, e outros.Alunos fazem festa com tema ‘se nada der certo’ e se fantasiam de faxineiro, ambulante e cozinheiro
Uma festa com o tema “Se nada der certo” dos secundaristas do Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no Rio…www.huffpostbrasil.com

A tônica da crítica em torno desse acontecimento, girou, acertadamente, sobre como esta situação é um reflexo da mentalidade elitista da nossa sociedade que divide as pessoas (e suas vidas) de acordo com os símbolos de status que conseguem adquirir pra si, tendo como divisor de águas sua entrada no ensino superior, em cursos de primeiro escalão preferencialmente (a saber, direito, medicina, engenharias).

No entanto, seria injusto dizer que este pensamento é somente das elites. Toda a nossa sociedade, todas as classes sociais, equacionam sucesso a partir das variáveis: “estudos” →profissão → bom emprego → dinheiro = vida dando certo. Não é, portanto, uma questão pura e simples de ter dinheiro. Isso é sobre fazer um determinado percurso que necessariamente passa pelo ensino superior, pela cultura do diploma, pelo menosprezo pelo saber não escolarizado.

Também seria hipocrisia apontar dedos aos jovens classe-média da festa e também à escola, sem fazer uma própria mea-culpa. Eles não estão reproduzindo nenhum valor que não seja de toda nossa sociedade, que divide o mundo entre primeira e segunda classe. E ninguém quer ser cidadão de segunda classe. Poucos são os que estão agarrados aos estudos por puro amor ao saber. Diploma é ferramenta de ascensão social e é símbolo de status. E educamos nossos filhos para “entrar em uma boa universidade e ter um futuro”. Aqueles que podem o fazem. Os que não podem, o sonham. Mas todos querem.

E então o que eu gostaria de refletir aqui é: que modelo de vida estamos ensinando para os nossos filhos? O que acontece com eles quando eles atingem esse lugar, que ensinamos que é o ápice do sucesso e estabilidade e eles ainda se encontram infelizes, frustrados, deprimidos? Nós, pessoas cuidadoras, temos realmente esse direito, ou devemos ter esse dever, de passar para frente uma fórmula de felicidade que mal funciona para nós mesmos?

A vida não está dando certo. Não precisa muito esforço para entender, é só ligar a televisão. É só conversar abertamente com as pessoas. Sem performance. De coração aberto. Trabalhamos demais. Adquirimos coisas que não sabemos muito bem para que serve. Não conseguimos realizar muitas conexões emocionais profundas. Estamos isolados. Politicamente decepcionados, frustrados, deprimidos. Sentimos medo. Estamos cansados. Desamparados.

A vida não é como nossos pais disseram que seria. Não é como a televisão mostra. Quando olhamos pela janela, não vemos esse mundo que está na TV. Será que estamos preparando nossos filhos para viver nesse mundo que existe de fato? O que acontece com a pessoa cuja vida “não deu certo”? E com aquela que rejeita essa fórmula, simplesmente porque tudo que ela quer é ser atendente da loja da esquina e ir andando pro trabalho para ter mais tempo pra fazer qualquer outra coisa que não trabalhar? Porque o que ela gosta mesmo é de passar as tarde jogando videogame?

Somos doutrinados para admirar e valorizar uma vida voltada para o trabalho. E isso é uma manobra muito bem posta simplesmente para que continuemos produzindo e produzindo e produzindo. Até que um dia percebemos que todas as horas da nossa vida foram doadas para gerar riqueza para pessoas desconhecidas, que nos exploram e em nada valorizam. E não conhecemos direito as pessoas que moram na nossa casa porque não temos tempo para conversar com elas. E as vidas são tão diferentes e tão parecidas!

Sim, nós vivemos como nossos pais em certa medida. Mas plantamos a semente de expectativas que pouco tem solo para florescer e criamos filhos que se tornam adultos frustrados quando descobrem que são pessoas comuns, limitadas, falhas. E que vivem uma vida “medíocre”, como todas as outras pessoas do mundo. E não ensinamos a lidar com o fato de que tudo bem por isso. As pessoas não são especiais, embora secretamente todos acreditem nisso. E passem a vida buscando ser reconhecidas por isso.

E criamos, e fomos criados, para morrer tentando. Tentando ser o melhor ‘alguma coisa’. Isso está nos destruindo. E olhamos para nossa vida, que pode ser boa, mas enxergamos fracasso. E desviamos o olhar das pequenas grandes coisas cotidianas que adoçam o coração e fazem valer a pena prosseguir.

E essa não é uma apologia ao fim do trabalho. Esse é um chamado para a reflexão que a nossa sociedade deu muito errado. Não é esse tipo de vida e esse tipo de valores que vão trazer alguma felicidade para nós, nem individual, nem coletivamente.

Esta vida, como esta posta na nossa sociedade, não foi feita pra dar certo.

Porque se ela der certo, as pessoas parar de consumir tanto. Porque consumir é uma maneira de se compensar por todo o sacrifício que é feito para viver essa vida que é vendida na TV. Olhem pela janelas dos seus carros. Olhem pela janela do ônibus. É lá onde a vida está. Como é possível dizer as nossas crianças que se elas tiverem um profissão, um emprego, e “estabilidade”, a vida dela “deu certo”? Você realmente acredita nisso? Aposta nisso? Você que se preocupa tanto em “preparar” o seu filho, e o matricula em mil cursos para aprender habilidades técnicas (inglês, informática, idiomas), o está preparando para viver que tipo de vida exatamente? Onde estão essas pessoas felizes, satisfeitas, produtivas, transformadoras?Depressão cresce no mundo, segundo OMS; Brasil tem maior prevalência da América Latina
Doença afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros, segundo dados da OMS. Brasil é o país com maior preval…g1.globo.com

Colocamos nossos filhos boa parte da vida em escolas onde parte do conteúdo se perde por completa desvinculação com a vida cotidiana. Obrigamos adolescentes que mal aprenderam a ajeitar o absorvente na calcinha e a fazer a própria barba a decidirem por uma profissão que vão exercer pelo resto das suas vidas. Vendemos para estas meninas e meninos a ideia de que existe um único modelo de vida que funciona. E punimos com a “decepção paterna” caso eles rejeitem esse modelo. Se não estudam o que gostaríamos, se não trabalham com o que admiramos, se não querem fazer sexo com quem aprovaríamos.

O que estamos fazendo com nossos filhos? Temos realmente completa certeza de que este caminho é o que vai torná-los felizes? É isso que deveríamos esperar para eles, não? Queremos nossos filhos felizes, ou queremos que “suas vidas dêem certo”?

Os modelos precisam ser questionados. Precisam ser discutidos. Precisamos entender que tipo de instrumentalização uma pessoa precisa de fato para enfrentar o cotidiano e sobreviver. Para transitar nessa sociedade de maneira transformadora, propositiva. Precisamos rever nossa escala de valores onde estar com quem se ama se torna menos importante que “ter sucesso”. Onde receber o reconhecimento de desconhecidos mobiliza mais o nosso empenho que o afeto dos nossos filhos. Onde reproduzimos um comportamento e ensinamos valores que nos transforma em pessoas individualistas, egoístas, solitárias. Onde nos separamos, nos desunimos, nos violentamos.

Precisamos parar de tentar fazer essa vida dar certo. Isso não vai acontecer. Vamos repensar o que é de fato importante e tentar construir um modelo em que fazer a vida dar certo não precise ser um objetivo. Uma sociedade em que não existam pessoas divididas em vidas que deram certo e vidas que deram errado.


Uma escola no Rio Grande do Sul promoveu uma festa para seus alunos adolescentes com o tema “E se nada der certo”. Mergulhados na proposta, os jovens compareceram fantasiados de profissionais da área operacional e serviços, como faxineiro, atendente, mecânico, e outros.Alunos fazem festa com tema ‘se nada der certo’ e se fantasiam de faxineiro, ambulante e cozinheiro
Uma festa com o tema “Se nada der certo” dos secundaristas do Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no Rio…www.huffpostbrasil.com

A tônica da crítica em torno desse acontecimento, girou, acertadamente, sobre como esta situação é um reflexo da mentalidade elitista da nossa sociedade que divide as pessoas (e suas vidas) de acordo com os símbolos de status que conseguem adquirir pra si, tendo como divisor de águas sua entrada no ensino superior, em cursos de primeiro escalão preferencialmente (a saber, direito, medicina, engenharias).

No entanto, seria injusto dizer que este pensamento é somente das elites. Toda a nossa sociedade, todas as classes sociais, equacionam sucesso a partir das variáveis: “estudos” →profissão → bom emprego → dinheiro = vida dando certo. Não é, portanto, uma questão pura e simples de ter dinheiro. Isso é sobre fazer um determinado percurso que necessariamente passa pelo ensino superior, pela cultura do diploma, pelo menosprezo pelo saber não escolarizado.

Também seria hipocrisia apontar dedos aos jovens classe-média da festa e também à escola, sem fazer uma própria mea-culpa. Eles não estão reproduzindo nenhum valor que não seja de toda nossa sociedade, que divide o mundo entre primeira e segunda classe. E ninguém quer ser cidadão de segunda classe. Poucos são os que estão agarrados aos estudos por puro amor ao saber. Diploma é ferramenta de ascensão social e é símbolo de status. E educamos nossos filhos para “entrar em uma boa universidade e ter um futuro”. Aqueles que podem o fazem. Os que não podem, o sonham. Mas todos querem.

E então o que eu gostaria de refletir aqui é: que modelo de vida estamos ensinando para os nossos filhos? O que acontece com eles quando eles atingem esse lugar, que ensinamos que é o ápice do sucesso e estabilidade e eles ainda se encontram infelizes, frustrados, deprimidos? Nós, pessoas cuidadoras, temos realmente esse direito, ou devemos ter esse dever, de passar para frente uma fórmula de felicidade que mal funciona para nós mesmos?

A vida não está dando certo. Não precisa muito esforço para entender, é só ligar a televisão. É só conversar abertamente com as pessoas. Sem performance. De coração aberto. Trabalhamos demais. Adquirimos coisas que não sabemos muito bem para que serve. Não conseguimos realizar muitas conexões emocionais profundas. Estamos isolados. Politicamente decepcionados, frustrados, deprimidos. Sentimos medo. Estamos cansados. Desamparados.

A vida não é como nossos pais disseram que seria. Não é como a televisão mostra. Quando olhamos pela janela, não vemos esse mundo que está na TV. Será que estamos preparando nossos filhos para viver nesse mundo que existe de fato? O que acontece com a pessoa cuja vida “não deu certo”? E com aquela que rejeita essa fórmula, simplesmente porque tudo que ela quer é ser atendente da loja da esquina e ir andando pro trabalho para ter mais tempo pra fazer qualquer outra coisa que não trabalhar? Porque o que ela gosta mesmo é de passar as tarde jogando videogame?

Somos doutrinados para admirar e valorizar uma vida voltada para o trabalho. E isso é uma manobra muito bem posta simplesmente para que continuemos produzindo e produzindo e produzindo. Até que um dia percebemos que todas as horas da nossa vida foram doadas para gerar riqueza para pessoas desconhecidas, que nos exploram e em nada valorizam. E não conhecemos direito as pessoas que moram na nossa casa porque não temos tempo para conversar com elas. E as vidas são tão diferentes e tão parecidas!

Sim, nós vivemos como nossos pais em certa medida. Mas plantamos a semente de expectativas que pouco tem solo para florescer e criamos filhos que se tornam adultos frustrados quando descobrem que são pessoas comuns, limitadas, falhas. E que vivem uma vida “medíocre”, como todas as outras pessoas do mundo. E não ensinamos a lidar com o fato de que tudo bem por isso. As pessoas não são especiais, embora secretamente todos acreditem nisso. E passem a vida buscando ser reconhecidas por isso.

E criamos, e fomos criados, para morrer tentando. Tentando ser o melhor ‘alguma coisa’. Isso está nos destruindo. E olhamos para nossa vida, que pode ser boa, mas enxergamos fracasso. E desviamos o olhar das pequenas grandes coisas cotidianas que adoçam o coração e fazem valer a pena prosseguir.

E essa não é uma apologia ao fim do trabalho. Esse é um chamado para a reflexão que a nossa sociedade deu muito errado. Não é esse tipo de vida e esse tipo de valores que vão trazer alguma felicidade para nós, nem individual, nem coletivamente.

Esta vida, como esta posta na nossa sociedade, não foi feita pra dar certo.

Porque se ela der certo, as pessoas parar de consumir tanto. Porque consumir é uma maneira de se compensar por todo o sacrifício que é feito para viver essa vida que é vendida na TV. Olhem pela janelas dos seus carros. Olhem pela janela do ônibus. É lá onde a vida está. Como é possível dizer as nossas crianças que se elas tiverem um profissão, um emprego, e “estabilidade”, a vida dela “deu certo”? Você realmente acredita nisso? Aposta nisso? Você que se preocupa tanto em “preparar” o seu filho, e o matricula em mil cursos para aprender habilidades técnicas (inglês, informática, idiomas), o está preparando para viver que tipo de vida exatamente? Onde estão essas pessoas felizes, satisfeitas, produtivas, transformadoras?Depressão cresce no mundo, segundo OMS; Brasil tem maior prevalência da América Latina
Doença afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros, segundo dados da OMS. Brasil é o país com maior preval…g1.globo.com

Colocamos nossos filhos boa parte da vida em escolas onde parte do conteúdo se perde por completa desvinculação com a vida cotidiana. Obrigamos adolescentes que mal aprenderam a ajeitar o absorvente na calcinha e a fazer a própria barba a decidirem por uma profissão que vão exercer pelo resto das suas vidas. Vendemos para estas meninas e meninos a ideia de que existe um único modelo de vida que funciona. E punimos com a “decepção paterna” caso eles rejeitem esse modelo. Se não estudam o que gostaríamos, se não trabalham com o que admiramos, se não querem fazer sexo com quem aprovaríamos.

O que estamos fazendo com nossos filhos? Temos realmente completa certeza de que este caminho é o que vai torná-los felizes? É isso que deveríamos esperar para eles, não? Queremos nossos filhos felizes, ou queremos que “suas vidas dêem certo”?

Os modelos precisam ser questionados. Precisam ser discutidos. Precisamos entender que tipo de instrumentalização uma pessoa precisa de fato para enfrentar o cotidiano e sobreviver. Para transitar nessa sociedade de maneira transformadora, propositiva. Precisamos rever nossa escala de valores onde estar com quem se ama se torna menos importante que “ter sucesso”. Onde receber o reconhecimento de desconhecidos mobiliza mais o nosso empenho que o afeto dos nossos filhos. Onde reproduzimos um comportamento e ensinamos valores que nos transforma em pessoas individualistas, egoístas, solitárias. Onde nos separamos, nos desunimos, nos violentamos.

Precisamos parar de tentar fazer essa vida dar certo. Isso não vai acontecer. Vamos repensar o que é de fato importante e tentar construir um modelo em que fazer a vida dar certo não precise ser um objetivo. Uma sociedade em que não existam pessoas divididas em vidas que deram certo e vidas que deram errado.


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