Ensino remoto em tempos de quarentena: o retrato da nosso desalento

 Ensino remoto em tempos de quarentena: o retrato da nosso desalento

Abril de 2020, em pouco cumpriremos cerca de um mês de isolamento social por conta da pandemia causada pelo vírus COVID-19. Todos os estudantes foram liberados das aulas e boa parte dos trabalhadores que tiveram essa possibilidade estão em home-office. Ou desempregados. E muitas famílias agora estão tendo que lidar com a demanda de manter a rotina escolar dos seus filhos através da prática de homeschooling (ensino em casa), que é problemática em tantos níveis que chega cansa ter de enumerar.

E aí antes de qualquer coisa é preciso deixar bem demarcado que este é um “problema” de uma parte quase privilegiada da população, que consegue colocar seus filhos em escolas particulares, que são as que estão gerando esse tipo de demanda. Para muitas famílias o recesso escolar significa acima de tudo refeições a menos disponíveis para que seus filhos comam. E fome.

Então, homeschooling em tempos de quarentena em um mundo que se desfacela evidencia a completa deterioriação do sentido da educação formal em função de uma visão absolutamente liberal, funcionalista e clientelista. E o mais nefasto é que — embora ninguém admita — o bem-estar e a aquisição de conhecimento por parte das crianças e jovens é a última coisa que está sendo considerada nesse processo diante das necessidades de uma lógica de mercado.

Porque, falando muito honestamente, o que está acontecendo não é um esforço pelo bem estar do aluno mas um problema de caixa. As escolas particulares precisam, justificadamente, que os pais permaneçam pagando a mensalidade. Mesmos que estejam fechadas, há inúmeros custos que se mantém, inclusive o de folha de pagamento. Os pais, uma vez pagantes, e na posição de clientes, cobram então que a escola ofereçam alguma contrapartida para os filhos, já que “não vão pagar pro filho ficar sem estudar”, do mesmo jeito que as escolas cobram que os professores produzam conteúdo já que “não vão pagar para ficarem sem trabalhar”.

Então está formado o circo: escolas passam o rolo compressor em cima dos seus profissionais para que produzam conteúdo para ser dado a distância, mesmo que estes: a) não sejam preparados para produzir material de EAD (que tem especificidades); b) não possuam equipamentos para produzir material adequado; c) não tenham o menor conhecimento de edição de material gráfico e audiovisual; d) não tenham o menor preparo para criar material extra adaptado para alunos atípicos que porventura tenham. A metodologia pedagógica que quase sempre prescinde da interação entre aluno e professor em sala de aula foi pro saco e toneladas de material conteudista são despejados a toque de caixa sobre o estudante, quase sempre sem possibilidade de manter algum nível de regularidade em termos de qualidade, didatismo, e possibilidade de compreensão.

Na outra ponta temos os pais, entre satisfeitos porque estão recebendo o produto pelo qual estão pagando e desconfortáveis porque são alçados à categoria de — no mínimo — tutores do ensino dos filhos diante do conteúdo que recebem. Numa função que é muito diferente da habitual supervisão que pais deveriam fazer do desenvolvimento escolar dos filhos (e que na real, muitos nem fazem). E isso também tem inúmeros fatores que não vão sendo levados em conta, já que muitos pais: a) não têm tempo para realizar essa tarefa pois está em casa com os filhos está em home-office; b) não têm capacidade para auxiliar as crianças na compreensão do conteúdo que está sendo oferecido (seja por falta de domínio sobre o tema, seja por falta de traquejo pedagógico) e podem, nesse processo, causar mais estragos que trazer benefícios; c) não possuem equipamentos e acesso digital que permita que usufruam dos conteúdos enviados; d) não conseguem adaptar o material para seus filhos atípicos.

E aí eu abro aqui um parênteses importante que quando eu falo “pais”, eu estou querendo dizer quase sempre “mãe”, que é sobre quem, no fim das contas, recai a responsabilidade sobre a tarefas de cuidado, supervisão e educação dos filhos.

E no meio disso tudo… as crianças. Completamente ignoradas em suas especificidades, tendo sua subjetividade massacrada pelo processo, inseguras e mal orientadas. Tendo que lidar com os pais como “professores” com todas as complicações que isso significa. Muitos filhos não se adaptam a essa nova “função” dos pais, muitos pais se investem de um novo autoritarismo como método de “ensino”. Isso quando não são abandonadas à própria sorte para a apreensão do conteúdo. Nem todas as crianças se concentram e realmente apreendem alguma coisa num formato de tela que é absolutamente novo para elas quando usado para algo que não o puro e simples entretenimento. E nenhum estudante está sendo poupado, há relatos de crianças de creche, com menos de 3 anos de idade que estariam recebendo “trabalhinho” para fazer em casa.

E a pergunta que não quer calar é? Pra quê isso?

Vamos lá.

A função da educação, oferecida na escola, bem resumidamente, é preparar o jovem para assumir seu lugar no mundo. E só nesse ponto já dá pra gente parar um minuto, respirar, e pensar um pouco: para que mundo estamos tão ansiosos assim por preparar nossos filhos nesse exato momento? Estamos afoitos enfiando conteúdo para explicar que realidade exatamente? Estamos correndo para que não se perca o “ano letivo”? Que ano letivo? E daí se isso acontecer? Olhem em volta, está tudo sendo cancelado, adiado, pausado, excluído, pulverizado. Ano letivo? Sério mesmo?

Aceitem. O mundo já mudou e não sabemos o que virá daqui a um tempo. Não sabemos quanto tempo até a vida “voltar ao normal”, nem o que será esse novo normal. É compreensível que as pessoas ainda tentem, de alguma forma, manterem-se em contato com um estilo de vida e uma realidade que cada vez existe menos. É uma espécie de luto por uma ordenação social que se esfacela e a qual estamos agarrados. Boa parte ainda está na fase da negação. Muitos se recusam a sair dela. Mas é isso se permitam ser expectadores da história que acontece sob nossos olhos sem esse desespero de fingir que nada está acontecendo.

Estamos diante da possibilidade de repensar uma série de coisas em relação a maneira que vivemos, ao tipo de sociedade que somos e nossas reais necessidades. Sobre a educação que recebemos e a que queremos dar aos nossos filhos. O que avaliamos que realmente é importante para lidar com os desafios da vida. E há muita coisa que eles precisam aprender nesse momento que não passam equações e análises sintáticas. Há muita coisa acontecendo lá fora e dentro de nossas casas que prescinde de resiliência, paciência, equilíbrio emocional, disciplina, capacidade de identificar potenciais foco de perigo, reagir em situação de emergência, habilidades que eles precisam imediatamente adquirir para viver a realidade dada hoje, que está diante dos olhos deles. Nossos filhos também estão passando por essa pandemia e não podemos ser ingênuos de achar que eles não sabem e não sentem o que está acontecendo.

Além do mais, a escola, para a criança, não é apenas um local onde ela é preenchida de conteúdo como se fosse um jarro vazio. É um local onde, ao invés disso, a criança vai sendo moldada, esculpida, sendo transformada nesse jarro que será capaz de apreender conhecimento do mundo, não só da escola. É um espaço eminentemente de socialização, organização do pensamento, desenvolvimento de múltiplas capacidades, descoberta da individualidade e isso não pode ser reproduzido no ambiente de casa.

Estamos tendo essa excelente chance de pensar o papel e o valor da escola, da educação, dos professores. Educação não é um produto. A relação aluno-professor não pode ser pautada pelo clientelismo. E em pensar em soluções para o verdadeiro problema que não está sendo encarado: as escolas precisam de ajuda financeira para se manterem abertas até voltarem a poder atender seus alunos. Os profissionais de educação precisam de ajuda para sobreviver até poderem voltarem a trabalhar. Onde está o Estado? Educação é um tema estratégico. Precisamos de educação de qualidade, universal, e do mesmo nível para todos. Foi por deixar a tal mão invisível do mercado reger tudo, inclusive as relações de ensino que agora estamos levando um tabefe dessa mesma mão, no meio da cara.

Falar em homeschooling no meio de uma pandemia mundial que ameaça modificar profundamente o nosso modo de viver é o retrato do nosso desalento, desespero e desamparo estatal. Só espero que tudo isso sirva para escancarar nossa situação e obrigar a todos nós, enquanto sociedade, a exigir e buscar um pouco mais. E nesse meio tempo: deixam as crianças e os jovens em paz.

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