Não tenha filhos: faça-me rir.

Circulou por aí um texto do palestrante sobre parentalidade Marcos Piangers que agitou a blogosfera materna dividindo opiniões. Pois muito que bem, eis a pérola.

Bom, em primeiro lugar, eu queria dizer que entendi mesmo o objetivo do texto, o que ele quis dizer, e como numa primeira análise esse lugar-comum de “não tenha filhos” parece tão bonito, tão ecológico, tão modernoso. Mas né, é o tipo de coisa que atira no que vê e acerta no que não vê.

E eis o que esse texto não vê: primeiro, que a premissa de que pessoas que não querem se comprometer com a criação de crianças não deveriam ter filhos é tão correta quanto falaciosa. Coisa bonita para falar em palestra mesmo, onde provavelmente o público é branco, classe-média, bem-formado. Porque quem realmente está preocupado em ter ou não ter filhos quase nunca é o homem. É sabido e notório que a responsabilidade pela contracepção cai TODA no colo da mulher, amigo. Homens estão lá a passeio, só querem usar camisinha sob ameaça de uma escopeta, e aproveitam a primeira oportunidade para chantagear a parceira com o papo de que “agora que estamos num relacionamento sério podemos abrir mão da camisinha”. Se protege aí da gravidez. Se vira. E é a mulher que carrega o fardo de dar um jeito de não engravidar.

E aqui uma informação bacana: nenhum método contraceptivo te oferece uma margem de 100% de segurança. NEM LAQUEADURA. NEM VASECTOMIA. O ideal é usar métodos combinados, ou seja, é preciso contar com a boa vontade do parceiro sexual em permanecer usando a camisinha. O que causa até crise nuclear, que dirá conjugal.

E aí quando você fala “não tenha filhos”, para quem você está falando exatamente? Fica o questionamento. Para os homens é que não é, né. Porque eles só estão preocupados em transar e depois apontar os dedos acusatórios para as mulheres caso elas engravidem. Você fala para homens, mas são as mulheres que estão ouvindo e pensando “faça-me rir”. E os homens que resolverem que realmente “não estão prontos para ter filhos” vão fazer o quê? Perturbar o saco das suas companheiras.

E acho muito bonito também esse papo de “não tenha filhos se não vai ter tempo”, realmente prova que o seu público é aquele que trabalha por esporte, que se dá ao luxo de ser “workaholic. Não é o relés mortal brasileiro, porque esse trabalha 14 horas por dia e dá graças a Deus porque conseguiu comprar carne moída nas compras de supermercado de mês. E aqui, diga-se de passagem, mais uma vez, as mulheres né. Porque elas que são as chefes da família tradicional brasileira. E aí muito bonito falar para uma mulher que está se esfolando para criar os filhos, quase sempre sozinha, que realmente não conseguiu controlar aquela gravidez, que já que ela não tem tempo não deveria ter engravidado. Está certíssimo, nota zero pra você.

E aí tudo bem, eu entendo mesmo que essa palestra deve soar muito bem e até ser adequada em alguma escola muito chique cuja mensalidade ultrapassa a renda anual do brasileiro médio. Para homens que realmente podem escolher entre aulas de tênis e brincar com os filhos no PS4. Só espero realmente que ninguém ache que isso contempla a nossa realidade.

Por outro lado, queria deixar aqui minha contribuição de 10 coisas que você pode falar por aí para homens, que eles estão mesmo precisando ouvir e que vai ser imensamente mais útil, para todos. Se liga só:

  1. use sempre camisinha: Não importa o que aconteça, não importa quantos anos de relação vocês tenham. Nós sabemos que não aperta, isso é papo. Nós sabemos que tem opções anti-alérgicas. Não é só uma questão de contracepção é cuidado com a saúde geral também.
  2. ajude sua parceira sexual a custear o método anticoncepcional que ela usa: acredite é mais caro que camisinha, no cômputo geral.
  3. ajude sua parceira sexual a lembrar-se de tomar o anticoncepcional, caso ela o faça: Acredite, lembrar de tomar o mesmo remédio, todo dia, na mesma hora, na vida corrida que nós temos, nem sempre é fácil. Duas cabeças pensam melhor que uma.
  4. seja pró-aborto: Exatamente, se nada deu certo, mulheres precisam de uma opção segura para interromper uma gravidez não-planejada. Não se meta a legislar sobre um tema em que você não tem a ver e muito pouco ajuda.
  5. assuma seu filho: São mais de 5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro. Assuma seu filho, não importa que ele nasceu de uma única transa. Não importa se você mal conhece a mãe da criança. Não importa se vocês se separaram e você está formando outra família. Não importa se você já tem outra família. E outros filhos.
  6. não explore a força de trabalho da mãe do seu filho: cuide do seu filho. Não só fazendo bilu bilu e tirando foto pro instagram não. A parte laboral mesmo. Excetuando gestar, parir e amamentar, todo o resto pode ser feito por qualquer um, não é uma exclusividade materna. Então aproprie-se dos cuidados da criança. Mesmo que você não more com a mãe da criança, busque uma maneira de revezar os cuidados para que a mãe possa ter um pouco de paz. Mesmo que você possua profissionais que auxiliem no cuidado com a criança, nada disso te exime de fazer sua parte. É você que tem responsabilidade de criar o seu filho.
  7. não explore a mãe do seu filho domesticamente: Limpe a casa, cozinhe, cuide da sua própria roupa. Você pode ajudar a limpar a casa da mãe do seu filho caso você não more com ela, já que certamente ela concentra a maior parte dos trabalhos. Não abuse do trabalho de profissionais que porventura cuidem da limpeza doméstica da sua casa. Faxineiros não são escravos.
  8. não explore a mãe do seu filho economicamente: Sustente o seu filho. Não subestime os gastos que uma criança traz e assuma-os. Pague pensão. Não fique reclamando ou fazendo conta dos gastos. Criar um filho custa dinheiro.
  9. não seja violento com a mãe do seu filho: Nem física, nem emocional, nem psicologicamente. Não seja um macho escroto dominador, possessivo, ciumento e agressivo. Ou manipulador, infiel, chantagista e aproveitador. Preserve a saúde mental dessa mulher.
  10. seja um exemplo de homem decente: É muito bonito tudo o que você diz, mas seu filho está observando o que você faz. É possível ser uma versão melhor de você mesmo, acredite. Um homem menos machista, mais participativo, mais humano, que trata mulheres com decência, que trata crianças com decência. Por mais que você ache que seja muito bom, melhore!

Olhaí, não é por nada não, mas se homens começarem a seguir ESSAS dicas… que maravilha seria hein Piangers! Beijo!

Cila Santos

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Segue trincando os dentes e indo em frente. Vamos juntas?

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