Representatividade sem revolução é uma armadilha

Em algum momento de um passado não muito distante nós começamos a perceber como vivemos uma sociedade estratificada por sexo, classe e raça. Em algum lugar desse passado nós conseguimos nomear o inimigo e ensaiar estratégias. Que só o desmantelamento das estruturas opressoras poderiam reordenar nossa sociedade em nome de um modelo que ainda não temos claro qual seja, mas que certamente não passa pelo genocídio e exploração sistemática de mulheres, pobres, negros.

E então, o contragolpe.

Ele sempre vem.

Inúmeras armadilhas narrativas foram plantadas e agora florescem em solo forte. E já estamos colhendo seus frutos, nos estilhaçando por dentro. Qualquer ensaio de uma coesão em nome de lutar contra um poder hegêmonico desfez-se em teses identitárias e subjetivas que parecem muito bonitas mas só causam dissenso, brigas e disputas e mais disputas inúteis que não levam a lugar nenhum.

Dividir pra conquistar. Esse, visivelmente, é o lema.

Tudo começou com essa ideia imbecil de que somos “múltiplos”, “plurais”, “diferentes”, dissolvendo completamente a possibilidade de nos vermos enquanto classe. Classe sexual, classe racial, classe proletária. Nós somos múltiplos no explorar das nossas subjetividades mas na vivência material? Somos muito mais iguais do que pensamos, há muito mais o que nos une do que o que nos separa.

Entre numa sala com 100 pessoas. Misturados ali, homens, mulheres, pessoas brancas, pessoas negras e pardas, pessoas ricas, pessoas pobres. Pergunte como cada um se sente. Pergunte sobre o que cada um pensa. Pergunte sobre o que cada um percebe. Você ouvirá 100 respostas distintas.

Agora pergunte sobre as vivências.

Quem já sofreu violência sexual. Quem já sofreu assédio. Quem já sofreu violência obstétrica. Quem já se prostituiu para poder comer. Quem já sofreu violência doméstica.

Pergunte quem já foi perseguido em uma loja. Quem tem medo da polícia porque é alvo. Quem já perdeu um amigo para violência policial. Quem já foi humilhado por sua cor. Quem já foi preterido. Quem já foi agredido.

Pergunte quem já sentiu fome. Quem já teve medo de não ter onde morar. Quem já precisou da caridade de terceiros para coisas como roupas para vestir. Quem nunca teve acesso a coisas simples como livros.

Você verá grupos distintos e muito bem demarcados. Unidos pela sua experiência material, de vida. Que só aconteceram por causa do seu sexo, da sua classe social, da sua cor.

A subjetividade nos separa, mas a materialidade nos une. Nos divide claramente entre quem manda e quem obedece. Quem oprime e quem é oprimido.

E estamos perdendo isso de vista e atacando uns aos outros.

Nesse cenário, não há armadilha maior que a ideia de “representatividade”, tal como é apresentada, com literalmente a inclusão feita de cima pra baixo de representantes de minorias (mulheres, negros, pobres) de maneira puramente simbólica. Como embaixadores de uma falsa ideia de sociedade democrática.

E isso é especialmente problemático porque não podemos perder de vista que não há interesse — e nunca haverá — que minorias tradicionalmente oprimidas e marginalizadas realmente acessem espaços de poder. E permitir a presença simbólica de alguns indivíduos em determinados lugares é uma estratégia de pacificação e cooptação de pautas para o seu esvaziamento. É uma concessão, não é uma conquista real da reivindicação dos movimentos, porque essa inclusão não acontece nas instâncias decisórias, mas nas esferas de estimulação do consumo. Garotos-propaganda sempre, diretores e presidentes, nunca. O discurso da “representatividade” é esvaziado e repaginado como uma genial estratégia de ampliação de mercado.

Sabe para quem a “representatividade” importa? Para a Natura que adquiriu a Avon e a receita da marca cresceu 19,3% em reais na América Latina, impulsionada especialmente pelas vendas no Brasil, e avançou 22,5% na operação internacional, que reúne 50 mercados na Europa, Ásia, África e Oriente Médio e está de olho no mercado de beleza para negros e pardos que apesar de comportem 57% do total de habitantes do país, representam apenas 5,9% das vendas no mercado nacional.

E você pode questionar-se: mas qual é o problema? Pessoas pobres, pretas e pardas tem direito de ser vistas como consumidoras, não? Claro que tem, o problema não é esse. O problema é que antes de ser consumidor, essa população precisa ser vista como GENTE. Como cidadãos de direitos. E nesse momento, a representatividade que grita é essa aqui: 38% da população mais empobrecida do Brasil é composto por mulheres pretas ou pardas, 35% por homens pretos ou pardos, perfazendo 73% das pessoas em condição de pobreza. O que está sendo feito por essas pessoas? Não é curioso que no momento que o discurso da tal da representatividade esteja mais em voga, os números mostrem que na vida a população negra e parda nunca esteve tão empobrecida e vulnerável?

Representatividade sem revolução é uma armadilha
a representatividade que importa

A “representatividade”, hoje, virou um produto que compramos para nos sentirmos menos humilhados por toda a exploração que sofremos. Para nos sentirmos “vistos”, “acolhidos”, “percebidos”. Não há interesse das elites em representatividade de verdade. Estratégias sérias, programáticas, para diminuir a enome desigualdade social e consequentemente garantir uma representatividade real, quantitativa, qualificada, não só nunca foram realmente aceitas como foram sistematicamente boicotadas. A política de inclusão de cotas raciais nas Universidades, por exemplo, existe há mais de 15 anos, uma política séria, efetiva, para garantir acesso às cadeiras de educação superior para populações marginalizadas e excluídas e sempre foi atacada. Programas de renda mínima como Bolsa Família? Sucateados.

Olhem bem para a cara das famílias mais ricas do mundo:

Representatividade sem revolução é uma armadilha
as famílias mais ricas do mundo: brancas, do norte global

Lá de cima da pirâmide, homens brancos cada vez mais ricos e poderosos refastelam-se. Nada os afeta. Nunca estiveram tão protegidos, tão blindados, tão tranquilos. E isso porque aqui, no rés do chão, ao invés de organizamos a revolução que vai pôr abaixo essa estrutura que nos esmaga, estamos brigando, batendo boca e disputando migalhas, achando muito bacana sermos “representados”. Sabe o que a representatividade é na prática? um mimo dos opressores. Um petisco que jogam da mesa para apaziguar os ânimos quando sentem que ideias subversivas demais estão a correr. Onde estão as mulheres pretas e pardas, onde estão as mães, sendo consideradas DE VERDADE nessa equação? Olhem para a REALIDADE. Na hora do vamos ver, mães são chutadas dos espaços políticos, pessoas negras são escorraçadasse não dobram sua retórica.

Nenhuma introdução de ideais contra-hegemônicos, nenhum movimento que realmente desafie o status quo, será bem recebido ou terá espaço para florescer sem uma forte resistência ou tentativas sistemáticas de descaracterização e enfraquecimento. Lutamos contra duas estruturas muito bem articuladas e poderosas — o patriacardo e o capitalismo. E essa super-estrutura também é fluida e muito eficiente em abarcar as dissidências e transformá-las em acessórios colaboracionistas disfarçados.

A representatividade que precisamos precisa ser reflexo de reparação histórica e social. Precisa ser o resultado de um processo revolucionário que desmonte a lógica de exploração a qual todos estamos submetidos. Precisa vir através do desmantelamento das estruturas e instituições que corroboram para nos manter nesse estágio de exército de reserva, marionetes do sistema. E esse processo só pode se dar através de construção coletiva, pelo reconhecimento do que nos une, pelo reconhecimento de quem nos ataca, pela nomeação de quem nos oprime.

Representatividade sem revolução é uma armadilha. O que precisamos é da ocupação natural dos espaços que vem depois da revolução de uma sociedade que nos mantém cativos.

Cila Santos

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Segue trincando os dentes e indo em frente. Vamos juntas?

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