Só o diálogo pode nos salvar da crise escolar

Em primeiro lugar é preciso falar muito claramente do seguinte panorama: a despeito de tudo que estão dizendo por aí, temos uma subnotificação monstruosa dos casos de Covid-19, pessoas estão morrendo aos montões, a transmissão está a pleno vapor, nenhum país do mundo até agora conseguiu um modelo seguro de saída da quarentena e eles estão semanas a nossa frente na evolução e combate da epidemia. Fomos um dos últimos países a entrar na rota de contaminação, seremos um dos últimos países a sair e não estará completamente seguro até que tenhamos uma vacina. Isso significa, considerando o período de desenvolvimento e testes, pelo menos janeiro de 2021.

É isso.

Assimilem essa informação, ela é difícil, ela é desesperadora, mas morrer ou ver pessoas que nós amamos morrer é pior. E o mundo vai se transformar completamente a partir da necessidade de termos que parar quase que completamente nossas vidas. Vamos ter que repensar muito, repensar tudo. Vivam esse luto, da perda da vida como conhecíamos. Avancem da fase de negação e vamos adiante. Temos que entregar 2020 como oferenda aos nossos Deuses interiores e pensar a vida a partir de 2021. Para isso temos que chegar até lá. E pra isso precisaremos acima de tudo de ter capacidade de conversar e agir coletivamente.

E aí sobre um aspecto específico que nos tangencia, recentemente eu fiz um texto falando sobre a situação das mulheres e crianças com a insistência da prática do estudo em casa durante o período de isolamento social causado pela pandemia do COVID19. Também rolou uma enquete no instagram do Militância Materna perguntando aos seguidores como estava a rotina com a prática do homeschooling. O resultado, bastante previsível: a maior parte das crianças, principalmente oriundas de escolas particulares estão recebendo conteúdo da escola. Esse conteúdo tem como objetivo único atender ao currículo regular, pouquíssimos estão se preocupando em articular esses saberes com o caos que acontece hoje do lado de fora das telas, sobrando para as mães em sua maioria supervisionar e ensinar o filhos. As mães em maioria estão se sentindo sobrecarregadas e avaliam que as crianças não estão aprendendo nada.

E aí a pergunta que surgiu foi: ok, mas o que fazemos então? Qual a solução? E aí espero que esse texto aqui ajude a pensar já que, na verdade a resposta é fácil: não existe solução. Ela precisa ser construída. Estamos vivendo questões absolutamente inéditas que exigem de nós que paremos de negar a realidade que está dada e dando tabefes na nossa cara e que pensemos em como lidar como isso.

Na questão específica da tríade escola — professores — pais há um tremenda quebra de braço e ninguém quer admitir que a questão não é a educação das crianças (que são as maiores prejudicadas no meio disso tudo) e sim um impasse financeiro.

Primeiro, as escolas precisam sair da fase da negação e admitir de uma vez por todas que o ano letivo acabou. Pressionar o MEC se for preciso. Difícil não? Mas convenhamos que é mais fácil hoje esperar sanidade do grupo de administradores escolares do que do ministro que nos governa. O ano letivo acabou antes de começar. Alguém me diz qual o sentido de falar em ENEM? Onde vocês imaginam que estaremos daqui a alguns meses? Que segurança temos a oferecer a toda comunidade discente e docente? Você vai permitir que seus filhos voltem para a escola? Em nome de que? Estudar o quê, para que mundo? Se não temos a menor previsão de normalidade?

E eu entendo que no caso das escolas particulares haja muito medo por conta de ver um futuro sombrio para seu estabelecimento, mas insistir em oferecer educação como um “produto”, a ser empurrado para as famílias para forçar o pagamento das mensalidades é uma péssima estratégia de negócios. A médio ou mesmo curto prazo os pais não vão mais ter condições de manter o pagamento integral e vão perceber que não tem nenhum sentido nas condições que estão estabelecidas. Seja porque está sendo inútil para os filhos, seja porque eles não estão dando conta, seja porque eles não aguentam mais, seja porque eles não vão ter dinheiro ou vão preferir usar esse dinheiro para qualquer outra coisa, como comprar comida. Até porque os pais pagam a escola para os filhos por que querem oferecer educação formal mas também porque precisam de um lugar para deixar as crianças parte ou durante todo o dia. E essa parte — bastante essencial — do serviço, está extinguida e não tem como ser substituída. Portanto, se escolas não flexibilizarem o valor que estão cobrando, vão quebrar.

Mas que acordo possível é esse se cancelarmos o ano letivo? Não sei gente, o que eu sei é que muitos pais precisam também parar de agir de forma clientelista e chantagista exigindo qualquer conteúdo em troca de manter o pagamento das mensalidades. Porque mesmo com a extinção do “serviço” esse pagamento não deve ser extinto por completo, o que não significa que ele precisa ser integral. Até porque, no meio disso tudo, estão os segundo mais prejudicados disso tudo depois das crianças: os professores.

Os professores estão coagidos a produzir material, mesmo não concordando com a metodologia. A maioria não tem o menor preparo para produzir material EAD ou mesmo equipamentos pra isso. Estão conciliando home office com o cuidados dos próprios filhos. Professor não é Youtuber. E eles fazem isso obrigados pela escola para entregar algo aos pais e justificar o recebimento da mensalidade que vai garantir a manutenção da escola e também o salário de todos. É bem cruel isso, olhando friamente.

Então chega a parte em que todos conversam e buscam um meio termo que atenda às possibilidades da família e à sobrevivência da escola com o pagamento dos seus funcionários, que são os professores. E isso não envolve só esses atores, é preciso o envolvimento ativo do Estado, intermediando e socorrendo financeiramente a TODOS. Cadê o MEC, cadê as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação? Cadê os Sindicatos representando a categoria dos professores, para garantir o salário deles a despeito de continuarem “trabalhando” ou não?

Precisamos chegar a um acordo até para pressionar e pautar os órgãos competentes (que com a atual administração são tudo, menos competentes). As “respostas” que buscamos passam sim por garantir soluções econômicas que garantam alguma autonomia financeira para os estabelecimentos particulares sobreviverem até o fim disso tudo. E por garantir dignidade e segurança financeira aos docentes. Até porque em algum momento as crianças terão que voltar a estudar e hoje o sistema público já não absorve a todos, quiçá se o sistema privado colapsar.

E a escola, nesse período, vai ter também que se reiventar. Porque não é só sobre discutir como sobreviver financeiramente. É discutir o sentido da própria existência mesmo, nessa sociedade que se reconfigura. A função da escola nesse momento não pode e não deve extinguir-se a despeito do currículo regular ou do ano letivo, e não deve limitar-se a ser um reprodutor de conteúdo ditado pelo MEC. Mais do que nunca precisamos dos profissionais de ensino e pesquisa para nos ajudar a pensar a realidade que estamos vivendo, nos ajudar a compreender e a passar por isso. Há inúmeros materiais que podem ser produzidos e compartilhados sobre a realidade que estamos vivendo, para ajudar toda a comunidade nesse processo, mas de uma maneira orgânica, e não de maneira mecânica, obrigatória, utilitarista, que visa apenas conseguir um certificado no final de tudo.

Precisamos nos organizar, dialogar, abrir contas, abrir mão do lucro em função de sobreviver. Cobrar os órgãos competentes por decisões lúcidas e auxílio financeiro. Dinheiro para socorrer bancos e empresas aéreas aparece, as escolas vão ficar à míngua?

Só com a união e diálogo entre pais, professores, administradores de escolas, podemos criar soluções e cobrar respostas do Estado para ficar bom pra todo mundo: pais conseguindo atravessar essa crise com seus filhos em casa com algum sossego na cabeça, escolas com fôlego financeiro para atravessar a crise sem fechar, professores recebendo seu salário, conteúdo pertinente sendo produzido que possa ajudar a todos a repensar e entender nossa realidade, o hoje acontecendo lá fora. A escola, a ciência e a pesquisa assumindo seu papel de suscitar e conduzir a reflexão cotidiana. A questão toda é essa, vamos parar de olhar pro lado e mentir pra nós mesmo dizendo que a maneira como estamos lidando com isso hoje é “pelas nossas crianças” porque isso é mentira.

E deixem as crianças em paz.

Cila Santos

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Segue trincando os dentes e indo em frente. Vamos juntas?

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