She-Ra e as Princesas do Poder

 She-Ra e as Princesas do Poder

A Netflix lançou recentemente um reboot do popular desenho da She-Ra, muito famoso nos anos 80. O desenho é uma agradável surpresa e recomendadíssimo para assistir com crianças já que finalmente apareceu alguma coisa que traz uma mensagem decente sobre o tal empoderamento feminino.

A premissa do desenho é a mesma: Adora é uma órfã que foi criada e treinada pela Horda para supostamente lutar para salvar o mundo em que vivia. Após um acidente, se perde na floresta dos Sussurros e é capturada pela princesa Cintilante e pelo Arqueiro, que lutam pelos Rebeldes, que a mostram que tudo que aprendeu sobre o mundo onde estava vivendo estava equivocado e que ela estava lutando do lado errado. Nesse meio tempo ela descobre uma espada mágica que a transforma na princesa prometida She-Ra, uma guerreira de 3 metros cheia de poderes muito loucos, como transformar um cavalo comum em um unicórnio. Então a trama se desenvolve com Adora na busca por entender seus novos poderes e lidando com as conseqüências das suas escolhas, enquanto fortalece seus laços de amizade com as pessoas que vai conhecendo entre os Rebeldes com quem se une para ajudar a combater a Horda e proteger Etéria.

O desenho é formado por 95% de personagens mulheres. Mesmo. E os personagens masculinos ou são acessórios, escada para um personagem feminino ou alívio cômico. Só por isso o desenho é bastante revolucionário. O personagem do Arqueiro, por exemplo, melhor amigo da princesa Cintilante, é um adolescente sensível, companheiro, que se emociona freqüentemente e serve muito mais como recurso para mostrar o desenvolvimento da Cintilante, que é um personagem muito rico, sempre em conflito com sua mãe, a Rainha de Lua Clara, para ter autonomia, independência e mostrar suas potencialidades.

Do lado da Horda, as antagonistas são maravilhosas e complexas. Felina tem um relação complicada de amor e ódio por Adora, que era sua amiga até sua partida e união com rebeldes. A relação delas inclusive é um fio condutor importante da trama pois Adora passa o tempo todo lidando com sentimentos contraditórios por ter deixado a amiga para trás, por vê-la escolher o lado dos vilões, por ter que lutar contra ela. E Felina por sua vez tem que lidar com o sentimento de abandono, rejeição, vingança e ambição de se tornar a capitã da Horda, agora que Adora estava fora do caminho. O Hordak aqui é um vilão completamente insípido totalmente nublado pela complexidade da Sombria, que tem uma estranha relação quase maternal com Adora enquanto maltrata e humilha Felina.

Felina e Adora, amigas e rivais

As Princesas também são um show à parte, e ajudam no alívio cômico, cada uma com poderes bem específicos e personalidades exóticas. E palmas aqui para a preocupação com a representatividade de biotipos (Cintilante é baixinha e gordinha, por exemplo), raças e etnias. E um adendo para falar do Ventania, lembra dele? Aqui ele se torna um unicórnio falante revolucionário que quer libertar todos os cavalos do mundo!

Os conflitos da trama são na verdade muito mais sobre questões psicológicas e emocionais dos personagens do que sobre a luta pra libertar Etéria. She-Ra não é uma guerreira pronta, na verdade muito longe disso. Adora recebe uma missão que não sabe como lidar e é o seu caminho para aprender como usar toda a força que descobre que tem que dá uma belíssima lição de empoderamento para meninas.

Em primeiro lugar essa força, esse poder, que Adora descobre que tem não a deixa pronta, nem traz resultados, muito longe disso na verdade. She-Ra é uma guerreira em construção, falha, e cheia de crises existenciais. E toda sua descoberta de si mesma passa por restaurar a Aliança das Princesas que foi desfeita no passado porque elas acreditaram que não havia resultado em lutarem juntas, que se saíam melhor sozinhas. Durante toda a série, Adora e Cintilante buscam reustarar e fortalecer os laços de confiança e amizade entre as Princesas do Poder, busca romper as diferenças, os medos, para que possam somar suas potencialidades e enfrentar o inimigo em comum. Então o desenho fala de muita coisa, mas fala principalmente de mulheres conhecendo sua força, de mulheres aprendendo a lidar com suas dificuldades pessoais, de mulheres aprendendo a importância de lutarem juntas, de mulheres aprendendo a confiar umas nas outras. E é apenas quando elas decidem se unir que o empoderamento acontece. Porque empoderamento é uma força coletiva. É a força de um grupo que consegue mudar uma realidade, não é um sentimento individual. She-Ra não é empoderada, mas a Aliança das Princesas é poderosíssima.

E por isso que o desenho vale cada minuto, para meninas verem princesas que valem a pena querer ser. Para meninos aprenderem a admirar meninas por suas habilidades, força, inteligência, coragem, e não por sua aparência. Que sorte que essa geração tem coisas assim para assistir, saudosismo com a She-Ra da sainha dos anos 80, nem pensar.

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