Rivalidade feminina: dividir para conquistar

Há um tipo de amor que só uma mulher pode oferecer, e que no entanto pouquíssimas vezes conseguimos acessar. Nossa socialização é perfeitamente moldada para nos vermos como inimigas, nunca aliadas, e isso é providencial para que não consigamos nunca nos unir em função de lutarmos juntas. A principal estratégia do patriarcado é fomentar a rivalidade feminina: dividir para conquistar.

A cruel competição por atenção masculina

Nascemos e somos impulsionadas a buscar aprovação e aceitação masculina para nos validar enquanto seres humanos perante a sociedade (“finalmente arranjou um marido”) e para cumprir nosso destino social imposto de procriar a espécie (“uma mulher só é completa quando se torna mãe!”). Somos doutrinadas a atrair e conquistar um macho que nos valide e nos fecunde (“a um casamento sem filhos falta alguma coisa!”) com a vã promessa de sermos transportadas para uma vida de conto de fadas (“e eles viveram felizes para sempre”).

Para alcançar este objetivo, “conquistar” — portanto casar — com um homem e ter filhos, que é o único objetivo absolutamente definido e completamente socialmente aceito para uma mulher, é necessário basicamente um único pré-requisito básico: ser bela.

Ser bela, a maldição de toda mulher, desde o nascimento (“mas que linda é a princesinha, parece uma boneca”; “coloca o brinquinho pra ficar bonita”; “e esse laço, pra ficar bonita”; “esse vestido, fica mais bonita”). Bonita, bonita, bonita, bonita, bonita. Seja bonita, mulher.

Desde crianças, não somos elogiadas, via de regra, pela nossa inteligência, pelo nosso bom humor, pela nossa perspicácia, independência ou engenhosidade. É o nosso cabelo, sorriso, olhos, pele, e até características que nunca deveriam ser levadas em conta em um bebê (“nossa, que perninha grossa, vai dar trabalho”) que entram na lista do que é digno de nota para ser elogiável. A “boquinha”, o “narizinho”, “vai ter um cabelo bonito”, “menina bonita não chora”, “sua feia”, “não come tanto, vai engordar, ninguém vai te querer”, “cabelo ruim”. Feia, feia, feia, feia. Não seja feia. Ou vai ser rejeitada. A sociedade vai te rejeitar, criança, menina feia. Porque você não é um projeto de menina bonita. Feita para atrair, conquistar um macho. Procriar.

Inteligência? Equilíbrio? Resiliência? Caracteres secundários. Sempre precedidos por uma conjunção que explicita muito bem o seu valor pois “não é bonita ‘mas’ é inteligente ou “é bonita e ‘ainda’ é inteligente”. Nenhum homem fala pra outro homem que a mulher que ele está saindo é “super legal”: Ela é “gata”, “gostosa”, “mulherão”.

Você pode até dizer que beleza é subjetiva. Mas não é. Toda mulher sabe bem. É muito claro quem é bonita e quem não é. Objetivamente. Está estampado em todas as capas de revista, em todos os horários da programação da TV, no cinema. Há instruções bem definidas para todos sobre como a mulher bela deve parecer. E os homens sabem muito bem como aumenta o seu capital social perante seus pares quando estão com uma “mulher bonita” ao lado. Não à toa, homens idosos, ricos e poderosos, compram a beleza e a juventude de mulheres para desfilarem status.

E às mulheres, o que resta? Uma vez que a beleza que é vendida para que seja alcançada é inalcançável? Competir umas com as outras (“espelho, espelho meu, existe alguém mais bela que eu?”). Competem ferozmente para serem as mais belas, até porque sua estima nunca está bem construída. Mesmo a mais bonita é ensinada a sequer se reconhecer bela, para permanecer frágil e não usar sua beleza como arma.

Toda mulher é ensinada a nunca se sentir boa o suficiente. Temos tanta disforia que nem nomeamos, é nossa velha companheira, desde sempre. Pergunte a uma mulher o que ela não gosta no próprio corpo, o que ela mudaria. Ela dirá “tudo”, ou quase tudo. Somos ensinadas a odiar nossos corpos e compelidas a modificá-los sempre. Em nome de uma beleza cruelmente esculpida em parâmetros inatingíveis com o objetivo se sermos eternos objeto do desejo masculino.

Competimos umas com as outras, sofremos, odiamos nossos corpos, em nome de sermos objetos sexuais. Na infância, doutrinadas para sermos belas. Na adolescência, jogadas na arena da validação de nossos corpos púberes.

Compete-se com as meninas que antes eram amigas de infância e brincadeiras por causa de outros garotos. Garotos que são educados a avaliar mulheres por sua beleza e disponibilidade sexual. Que fazem listas das mais belas. Das gostosas. Das “fáceis”. Que filmam as calcinhas das meninas às escondidas e compartilham às risadas. Que fotografam suas experiências sexuais e expõem como um troféu. Que atraem meninas dizendo “você é diferente”, “você não é como as outras”, “você é especial”.

Meninas que aprendem que “as outras meninas são chatas”, que “mulher tem muito mimimi”, que “mulher é tudo falsa, se você der mole elas roubam seu namorado”, que “mulher se arruma para competir com as outras”. Meninas, quando não “belas”, que aprendem a desprezar as outras meninas para serem validadas no grupo dos meninos como “uma garota muito legal”, que “nem parece mulher”.

Garotas que não conseguem confiar em ninguém. Porque não conseguem conversar com a mãe. Porque não aprenderam a confiar em outras meninas. Porque não tem com quem compartilhar seus medos, temores, experiências, e passam por isso sozinhas. Socializadas para se isolarem. Não trocarem experiências entre si. Não se solidarizarem. Não se ajudarem. Porque “mulher fala demais”.

Garotas que acabam tendo suas primeiras experiências com outros homens sem nenhuma rede de apoio para entender se estão num relacionamento saudável. Se estão tendo experiências sexuais plenas. Que acabam completamente reféns de um relacionamento porque “estão amando” e sentem que finalmente estão recebendo o combo prometido: aceitação e validação de um macho. Amor. Quem sabe casamento e filhos?

Quantos relacionamentos abusivos acontecem porque um homem olha nos olhos de uma mulher e diz que ela é especial? Que é só dele? Que juntos viverão felizes para sempre? Que finalmente fez essa mulher se sentir aceita, desejada, escolhida, validada, finalmente “completa”?

Nós mulheres somos socializadas para odiarmos umas às outras. Porque a outra mulher é uma competidora em potencial pela atenção e validação social que nos ensinaram que deveríamos receber. Sendo belas. Sendo objetos sexuais.

É assim que o patriarcado atua. É assim que patinamos e somos massacradas. Todos os dias.

Do amor que só uma mulher pode oferecer

Precisamos aprender a amar de verdade outras mulheres. De verdade. Compartilhar intimidade, nossos segredos, nossas dores. Nossas dores são tão iguais! Tão semelhantes. Assim como nossas alegrias. Nossos corpos, nossa socialização. Tantas cicatrizes vindas do mesmo agressor.

A maternidade, às vezes, te oferece esse possibilidade de ponto de encontro. Existe uma intersecção nas experiências de gestar, parir, alimentar, cuidar de uma criança, que te aproxima de outras mulheres. Embora mesmo na maternagem sejamos impelidas a competir, há um olhar de compreensão que só uma mãe exausta tem para outra mãe exausta que pode abrir uma comporta reprimida de afeto que só uma mulher consegue oferecer a outra mulher.

Sim. Há uma qualidade de afeto que só uma mulher pode oferecer a outra mulher. É aquele afeto de quem carrega dores muito semelhantes pela vida. De quem nasceu, cresceu, foi socializada, e foi tratada como mulher a vida inteira. Para o bem e para o mal. Há um lugar de conforto e carinho, de mulheres que choram juntas, que se entendem, se confortam, se perdoam. Que vertem sangue, leite, lágrimas. Que quando começam, que quando se permitem confiar, quando se permitem se amar, se sentem acolhidas. Se sentem em casa.

Não existe lugar mais solitário para uma mulher que na maternidade. Talvez por isso se abra essa janela de oportunidade. De receber outras fêmeas, de falarem de suas crias, lamberem suas dores. E quando isso acontece as coisas ficam menos sombrias. Porque quando mulheres se reúnem, e se amam, elas se fortalecem.

Há mulheres incríveis por aí. Maravilhosas, inteligentes, dedicadas. Com tanta coisa a ensinar. Mulheres não são falsas, nem fúteis. Ou estão espreitando para roubar seu homem. Elas estão ali sobrevivendo. Com histórias tão duras. Com tanta força, tanta coragem, tantas experiências incríveis de como conseguem permanecer inteiras numa sociedade que nos massacra, nos pisoteia. Há tanta beleza nessas mulheres. E não é dos seus corpos. É das suas almas.

Cila Santos

Cila Santos

https://cilasantos.medium.com

Escritora, feminista, mãe e ativista pelos direitos das mulheres e das crianças. Segue trincando os dentes e indo em frente. Vamos juntas?

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