Sobre quando eu tive câncer de mama

 Sobre quando eu tive câncer de mama

Essa sou eu, um mês antes da cirurgia, buscando minha luz interior

Outubro é o mês da Campanha Outubro Rosa, sobre prevenção do câncer de mama. A incidência deste tipo de câncer vêm crescendo a cada ano. É absurdamente mais comum do que imaginamos e cada vez menos letal graças ao diagnóstico precoce e novos tratamentos. E este é um tema especialmente sensível para mim por motivos de: eu já tive câncer de mama.

Descobri um nódulo na minha mama esquerda em novembro de 2012 durante uma apalpação básica cotidiana dos meus próprios seios. Palpável, sensível, do tamanho de um carocinho de feijão, talvez. Inequívoco. Quando senti o nódulo, imediatamente, não tive dúvidas de que aquilo era potencialmente um problema daqueles, basicamente movida por um velho sentimento de fatalidade que a terapia ainda não removeu, e minha primeira reação foi de pane total. Eu lembro que o meu primeiro pensamento foi — atenção — “como eu vou contar isso para minha mãe?” Pois é, minha mãe já tinha tido suspeita de câncer há alguns anos, e ela é do tipo que surta quando os filhos têm um resfriado comum. E foi para ela o meu primeiro pensamento, dos milhões de pensamentos possíveis. Te amo, mãe.

A minha segunda reação foi sair do transe e agir o quanto antes no sentido de tomar providências a respeito. E fiz tudo muito rápido. Busquei um ultrassonografia de mamas, marquei direto com um oncologista. O exame indicou que realmente o nódulo era suspeito. Biópsia. Carcinoma Ductal Invasivo. Vulgo câncer maligno de mama.

É muito estranho quando nos deparamos com um diagnóstico desses. Em nós mesmas, no caso. A gente passa pela vida acreditando que boa parte dessas coisas que vemos e histórias que ouvimos não nos dizem respeito ou nunca aconteceriam conosco. Ainda mais quando se tem 31 anos, como eu tinha na época. E então o imprevisível acontece e aí entramos em uma espiral de negação “por que eu?”, “por que eu?”. Até que precisamos cair na real, entender esse novo universo em que fomos jogadas e a grande ficha cai: “por que não eu?”. Adeus síndrome do floquinho de neve especial.

No meu caso, foram muitos os pensamentos contraditórios que sobrevieram, boa parte deles girando em torno dos clássicos “culpa” e “medo”. Culpa por achar que fez algo errado, não se cuidou o bastante, estava sendo castigada, não teve bons pensamentos ou comeu muita batata-frita. Culpa porque as pessoas que você ama estão sofrendo por medo de te perde. Culpa por não ser mais capaz de ser forte o bastante e segurar essa barra sozinha. E medo. Medo de ninguém conseguir segurar a sua onda. Medo da dor. Do tratamento. Da cirurgia. Da fragilidade física. De rejeição. De abandono. Medo de morrer.

Aliás essa coisa de morrer, para mim, se ressignificou bastante. Mais até, eu diria que essa coisa de viver foi completamente repensada.

Eu não vou tirar da sacola aquele clichezão de que me deu “vontade de viver”, afinal, o que isso significa de verdade, não é mesmo? Tecnicamente até, eu considerava que estava vivendo bem, obrigada. Mas com certeza eu fui tomada pela determinação de não morrer. E foi muito claro, pelo menos para mim, que naquele momento isso dependia de eu conseguir minimamente me manter bem emocionalmente e equilibrada o suficiente para encarar a luta contra minhas células mamárias rebeldes multiplicando-se sem controle.

As pressões de se ter um câncer são muitas e o mais difícil é caminhar nesta chuva fria enquanto a tempestade não cessa. Enfrentar os desafios emocionais de assumir o status de “pessoa doente”; lidar com a reação das pessoas queridas (que muitas vezes suportam bem a situação e te apoiam e muitas vezes simplesmente não conseguem e piram mais do que você); reorganizar a vida numa situação de fragilidade física. Pensar que é preciso começar a pensar em aspectos objetivos e burocráticos que podem envolver sua morte.

Encarar que sim, pode ser que você morra, mas o fato é que, enquanto isso não acontece, é preciso continuar vivendo, e com o melhor que conseguir. Descobrir que essa premissa deveria ter valido desde sempre e não apenas num momento tão crítico como aquele.

E aí, vejam só, ter um câncer colocou em perspectiva para mim o fato de que eu passei boa parte da minha vida cuidando, me preocupando, me dedicando, me doando para o bem estar físico, emocional e financeiro de todas as pessoas que me cercavam. Exceto o meu. E que minha sobrevivência, naquele momento dependia de eu virar essa chave. Não tinha mais espaço para aquilo para mim. Era eu ou eu. Mesmo. Para eu ter forças para enfrentar tudo o que vinha pela frente eu precisava colocar toda a energia que dispunha, todo o meu foco — pela primeira vez — nas minhas necessidades. Não que fosse fácil. Não que fosse simples.

O grande problema é que a socialização feminina nos empurra para este lugar de eterna cuidadora. E dependendo do nível disfuncional da família em que se cresce, isso vai ser mais ou menos forte em cada mulher. Mas sempre está muito presente essa ideia de que é sua função cuidar de tudo e de todos e nunca – demonstrar – precisar de nada. Ser a última a se recolher. Cobrir as crianças. Apagar as luzes. Checar a água do cachorro. Comprar os presentes para os filhos. E para os pais. E para os sogros. E aguentar pequenas e grandes dores sem “frescura”. E é muito duro isso. E é especialmente duro, quando nós mulheres nos vemos adoecidas, neste lugar de fragilidade, impossibilitadas de cuidar e tendo que ser cuidadas. Sobrevém muito forte um sentimento de ter falhado em alguma coisa. De não servir para mais nada.

Nós aprendemos que seremos amadas apenas se úteis para alguma coisa.

É comum entre as mulheres adultas dizer a frase “eu não quero dar trabalho para ninguém”. Seja para os filhos, seja para os pais, ou mesmo para o parceiro (ou parceira) de uma vida. Há um despreparo emocional muito grande para estar nesse lugar de dependência funcional. Como se estivéssemos fracassando em alguma função única e primordial para qual fomos preparadas a vida inteira. Então tentar olhar para si, e tentar cuidar de si é um desafio. Mas o autocuidado verdadeiro, e não o que é vendido na mídia, que fala na verdade sobre embelezamento e sexualização.

Esse autocuidado que carecemos, que desconhecemos como trazer para nossas vidas é um movimento de olhar para si, conhecer-se mesmo, entender qual sua identidade, seu lugar no mundo, e buscar atender a necessidades tão pessoais, íntimas e individuais que sequer sabemos que temos. É ousar colocar-se em primeiro lugar, pensar primeiro em si, se colocar na balança e tomar decisões que privilegiem a própria saúde física, psicológica e emocional. Em pequenas e grandes coisas (como dedicar o primeiro pensamento depois de saber que está com uma doença grave a si mesma e não a terceiros. Desculpa, mãe.).

Priorizar as próprias necessidades não é egoísmo. Nós somos socializadas para nunca nos priorizarmos, nós aprendemos a vigiar e culpabilizar mulheres que privilegiam a si mesmas. Então eu sei que dá um nó estranho na garganta quando começamos a guardar a capa da Mulher Maravilha e nos recusamos a atender demandas das outras pessoas em detrimento das nossas. Que tendemos a minimizar tudo que achamos importante, como se fosse uma “bobeira”. Fomos ensinadas a sempre ceder. Mas está tudo bem. Não é egoísmo se preservar. Preservar os próprios sentimentos. Se proteger da exploração do seu corpo, da sua mão de obra, do seu tempo. Não tem nada de errado em querer o melhor para si e a lutar por isso. Por colocar limites no outro que abusam da nossa boa vontade, da disponibilidade do nosso afeto, da nossa empatia.

Cada mulher pode, deve e tem o direito de se proteger e se autocuidar em um mundo que tanto nos ataca.

Eu sei também que esse “se priorizar” muitas vezes é um papo um tanto zen dependendo da realidade em que a mulher está inscrita, da rede de apoio que possui. Há muitas mulheres que de fato tem poucas pessoas ou nenhuma com quem contar em momentos de adoecimento. Histórias tristíssimas de mulheres que foram abandonadas por seus companheiros após o diagnóstico, que não receberam nenhum suporte nem de família nem de amigos, que continuaram sendo o principal esteio familiar apesar de toda a dificuldade da situação que estavam vivendo. Mulheres que são arrimo de família e estão completamente à margem, abandonadas pelo Estado, com filhos sob sua tutela para sustento. Mas tem sim um movimento interno possível de pelo menos pensar que é seu direito estar no centro da sua vida, de desejar isso, problematizar tudo que a cerca. De assumir a fragilidade como uma possibilidade, de aceitar para si que o seu corpo não está a serviço de ninguém.

Eu descobri o meu câncer em novembro de 2012. Como foi um diagnóstico bastante precoce, eu fui direto para a cirurgia e fiz uma mastectomia radical da mama esquerda em abril de 2013, coloquei uma prótese em janeiro de 2014. Em novembro de 2014, estava nascendo meu filho (pois é, longa história, que também vale a pena contar, mas vai ficar pra outro dia). E sim, eu o amamentei com a mama direita, até os dois anos e meio (outra longa história que qualquer dia eu conto).

Ter descoberto precocemente e agido o mais rápido que pude foi fundamental para que as coisas corressem muito bem, dentro do que eu enxergo. Foram dias intensos, de muita transformação pessoal e relacional, de muita revisão de trajetória. E — pasmem — foram dias que resultaram bastante divertidos também. Simplesmente porque eu estava levando a sério minha própria orientação de priorizar atender minhas demandas de toda ordem, físicas, psicológicas, emocionais, espirituais. De ficar bem, na medida que desse. Uma postura que eu entendo começou para valer mesmo naquele momento e que eu continuo batalhando cotidianamente contra minha socialização para fazer valer ainda hoje.

E é claro que esse é um relato absolutamente pessoal, minha experiência e a maneira como lidei como isso, de maneira particular e irreproduzível. Muitas mulheres estão passando por seus diagnósticos hoje e fazendo seu próprio caminho. O que eu posso deixar para todas elas é a minha história, minha solidariedade, meu carinho e minha mensagem de que não importa o que aconteça na nossa vida, devemos lembrar que ela é nossa, nos pertence, nós somos pessoas e por mais difícil que isso seja, por mais que nossa socialização jogue contra, nosso maior desafio, sempre, é assumir compromisso com nós mesmas, antes de qualquer outra coisa.

Vamos juntas.

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